Minha entrevista para a Revista Anime>Do nº 43

                                    ( nas bancas em janeiro de 2004 )

                                 

'Shibeti Shibeti Handara Bashin Sowaka. ''-Quem não lembra desta frase?
Provavelmente ninguém, mas e de um torneio, dois amigos, uma deusa e um Shurato transmigrado para o mundo Celestial?
Aha, isto sim!
E agora, entrevistaremos nada mais, nada menos que Tânia Gaidarji, não só a personificação desta deusa - Vishnu - mas como da bravinha e meiga Chun Li, da narcisista Bulma e da fria Dorothy Catalonia.

AD: Tânia, quando e como você começou a dublar?

Antes de mais nada vamos rever a “definição” das minhas amadas personagens.

Chamar a bela e inteligente Bulma de “narcisista” é muito pouco pra definí-la. Fala sério, a Bulma é o máximo ! A única personagem que  pude acompanhar por grande parte da vida dela. Dublei a Bulma garotinha, mulher e depois mais velha em GT...Até a vi morrer e renascer! E além de ver a Bulma como uma personagem de caráter firme, senso de humor, sensual, paqueradora, criativa...admitam, ela é mais “bravinha” do que a Chun Li !

Já a Chun é meiga, mas forte e decidida. Foi minha primeira pesonagem em animes e eu nunca perdia Street Fighter . Passava aos sábados de manhã. 

Quanto à loiríssima Dorothy, eu não diria fria, mas enigmática e cheia de sentimentos conflitantes.

Agora vou responder à sua pergunta (risos)

Eu nunca havia pensado em ser dubladora , embora tivesse há tempos o costume de tirar o som da TV e ficar brincando com os amigos de dublar, inventando textos para os filmes e todos os tipos de programas. Claro que só falávamos besteiras e era muito engraçado.

Em dezembro de 1992 eu já era atriz e pintou um concurso pra locução publicitária ( as vozes que a gente ouve em propagandas de TV e rádio ). Passei entre quase 2 mil pessoas e comecei a trabalhar com voz. Seis meses depois fui à Álamo e depois de alguns dias, aprendendo como se fazia, eu já estava dublando.

Eu gostaria de citar aqui três pessoas a quem sou muito grata ( entre outras ) nesse meu começo.

A Maximira Figueiredo, atriz e dubladora ( foi ela a primeira pessoa que me explicou como era trabalhar em dublagem e me indicou a Álamo). A Nair Silva, diretora que me ensinou o beabá no estágio da Álamo e me deu a chance de dublar pela primeira vez. E o Jorge Barcelos, hoje dono da Sigma, na época coordenador da Megassom por ter sido a pessoa que mais acreditou em mim e me deu muitos trabalhos no início da minha carreira. Assim não foi difícil aprender a dublar. Ah, o Jorge é o dono daquela voz linda, do Canal sony, sabem?

   
AD: Qual foi a sua primeira personagem fixa ?

Em animes a Chun Li. Mas primeira fixa mesmo foi a Madeleine ,uma francesinha que apareceu em alguns episódios de Anos Incríveis (The Wonder Years) da TV Cultura, em 1993.

A Nair me deu esse papel porque achava que eu falasse francês. Na verdade , na época, eu só falava inglês e espanhol, mas encarei a francesinha na boa, afinal ela só falava umas frases em francês e todo o resto em português.

 AD: Como foi fazer a Chun Li em Street Fighter II-V? É verdade que ela é sua eterna 'preferida'?

 Adoro a Chun Li, me divertia muito quando a dublava. O Nelson Machado era o diretor, tanto na Megassom quanto na Master Sound, onde dublamos Street Fighter. Mas hoje, juntamente com a Chun Li, tenho outras “preferidas”.

AD: Ainda lembra das falas da chinezinha de Hong Kong ?

Bem, lembro que no terceiro episódio, o Ken e Ryu pediram uma guia turística. Ela ligou para o hotel e combinou tudo com o Ken. Ao desligar, ele diz para o Ryu : “Parece que nossa guia é uma beleza...ela tem uma linda voz, deve ser a maior gatinha”

Bem...já comecei dublando feliz, afinal, eles tinham elogiado a voz dela...ou melhor, a minha!!! (risos)

Uma frase dela que lembro sempre ( não sei porque) é quando eles vão ao restaurante e ela fala : “Olha... e tem ninho de andorinha ! “

( referindo-se a um dos pratos do cardápio, enquanto o Ryu não entendia nada )


A
D: Em Dragon Ball Z você começou a fazer a Bulma, personagem que anteriormente fora feita por Christina Rodrigues. No início você sabia disto? Como foi dublá-la ?

Nós dubladores , principalmente no início das séries nunca sabemos praticamente nada a respeito do que vai ser dublado.

É chato dizer isso mas é a pura verdade.

Lembro até hoje da primeira vez que ouvi falar em Dragon Ball. Eu estava na Álamo e a Angélica Santos

( que na época era a coordenadora de elenco de lá, ou seja, que escolhia as vozes para todos os personagens) passou por mim e disse : “Chegou um anime e vai ter um papel legal pra você. Veio a versão em espanhol, o nome é Dragon Ball Z, mas o engraçado é que lá eles pronunciam Dragon Ball “Cêta” ( o Z lê-se assim em espanhol )”

Quando fui dublar a Bulma, dias depois, nem sequer desconfiava que uma outra versão de Dragon Ball já havia sido dublada anteriormente, e acho que a Angélica também não havia sido informada disso.

Vim a saber muitos meses depois ! E nunca ouvi a Bulma dublada pela Christina. Acho que ela não ficou brava com a gente, porque sabe que às vezes esse tipo de coisa acontece e não fizemos isso por mal, ou que peguei o papel dela só de sacanagem !

De cara já gostei da Bulma. Ela é deliciosa de se dublar porque seu humor varia muito. Ela ri, briga, grita, acha os meninos lindos....Tenho saudade de dublá-la !



AD: EM Dragon Ball, você fez a Bulma não com 30, mas com 16 anos. Como foi ?

Bem, a responsabilidade foi maior quando fui fazer Dragon Ball com a Bulma menininha porque nesse ponto eu sabia que ela já havia sido dublada antes, e eu sabia que tinha que fazer uma voz mais leve, mais “fininha” pra ela.

Eu não fiquei tão confortável como tinha ficado em DBZ, porque lá era tudo uma criação minha e eu nem sabia que minha voz seria comparada com a da outra versão.

Mas quando vi a Bulma chegando no carrinho dela, e o encontro dela com o Goku, já relaxei e fiquei contente por poder continuar dando voz a ela.

E ela começa assim, no primeiro episódio:

“Eu tenho certeza de que tá aqui perto. Claro que eu vou ter sorte !”

Não é linda ?!?


AD: Aliás, sobre aquele caso dos primeiros episódios dublados na DPN, onde você foi substituida pela Suzy Pereira, conte-nos o que houve.

Como eu disse, antes dublávamos Dragon Ball na Álamo. Eu estava numa fase muito agitada e muito legal da minha vida. Entre fevereiro de 2000 e dezembro de 2001 eu viajei mais de dez vezes para a Europa. Tive que abandonar praticamente todos meus personagens fixos nessa época ( Amy de Futurama, na Dublavídeo, uma garota que nem lembro o nome em Angela Anaconda, na Marshmallow, alguns personagens na Centauro...) O único estúdio que segurou a onda foi a Álamo, e inacreditavelmente, nunca deixei de dublar a Bulma lá. Eu viajava a trabalho, ficava duas ou três semanas fora e voltava pra São Paulo. Sempre deu pra conciliar a dublagem da Bulma com meu outro trabalho.

Acontece que em junho de 2002 voltei à Europa, pra passar apenas 10 dias lá.

Foi pela internet que eu soube que Dragon Ball iria passar a ser dublado na DPN e que as dublagens haviam começado na maior correria. O Wellington (diretor da série) até havia tentado me ligar, mas foi exatamente no dia em que viajei. Como eu iria estar de volta para o Brasil rapidinho, nem encanei...até que me disseram, por e-mail, que eu havia sido substituída !

Antes que eu tivesse um ataque de choro por perder a Bulma, veio a boa notícia : A Susy me substituiria apenas nos primeiros 12 episódios, e assim que eu voltasse, reassumiria o posto. E assim foi.

Isso aconteceu, creio eu, porque sendo a DPN novata na relação de trabalho com a Globo, eles se sentiram pressionados pela emissora e ficaram meio apavorados com os prazos. E isso foi uma grande bobagem, porque os primeirois episódios só foram ao ar muito tempo depois de dublados. Dava tempo e sobrava pra eu fazer todos. E sabem da maior ? Dizem que a Globo ainda reclamou por terem colocado minha voz de novo. Disseram que se a Suzy tinha começado, ela teria que seguir.

Isso explica a mudança do narrador. Daoiz Cabezudo, narrador original, havia sofrido uma cirurgia na época e não pôde gravar os primeiros episódios. Foi assim substituído pelo Pedro, dono da DPN. E foi o Pedro que continuou narrando a partir dali.

A propósito...aconteceu ainda da Raquel Marinho ter dublado a Bulma no Parisi e a Daniela Piquet na BKS.

Mas sem comentários para esses dois casos.

Prefiro acreditar que tenha  sido tudo apenas um desencontro ou uma trapalhada dos estúdios .

 

AD: Você lembra da Birdy (Birdy-the Mighty), da Sara de Ellcia e da Yao de Power Dolls ( todos exibidos pela Locomotion)? Como foi dublá-los?

Lembro muito bem da Birdy. Adorei aquela garota, e meu parceiro nesse anime foi o Wagner Fagundes. Gosto das trapalhadas deles e gostei do resultado final do trabalho. Da Sara, não lembro... E em Power Dolls, sei que fui dirigida novamente pelo Nelson Machado.


AD: Em Gundam Wing você fez Dorothy, uma garota que fria que demonstra sem sentimentos, porém que revela-se muito emotiva e triste no final da série (inclusive com uma ótima atuação sua). Como foi fazê-la? Deu mais trabalho, exigiu mais atenção ?

 A Dorothy foi absolutamente especial para mim. Nunca havia dublado uma personagem em anime com tanto sentimento, veja que paradoxo...e ainda dizem que Dorothy é uma garota sem sentimentos, uma mulher sem lágrimas..! Dublar a Dorothy foi como dublar uma personagem de um filme. Ela foi talvez a mais humana de minhas personagens.

Lembro até hoje que entrei no estúdio ( novamente a Álamo e novamente escolhida pela Angélica) e a diretora era a Denise Reis. Ela estava com mil papéis, impressos da internet...Me mostrou fotos da Dorothy, me falou sobre seu perfil e me deu uma explicação geral sobre Gundam. Sabiam que quando a gente dubla são raríssimos os diretores que fazem isso ???

Senti firmeza na direção da Denise, que me deixou completamente à vontade pra criar e interpretar a personagem. Pesquisei muito sobre ela na internet e me envolvi muito com o papel.

A Dorothy tinha toda uma história , um passado que fez ela se tornar o que era. Saber essa história foi de vital importância para mim. No último episódio, confesso que chorei dublando a Dorothy.

Por várias vezes já encontrei, por acaso, em sites e fóruns elogios a  esse meu trabalho. Isso me deixa extremanente feliz, pois foi feito com todo meu coração.

Ah, e uma curiosidade...sabiam que aquelas sobrancelhas estranhas dela têm um significado específico ( no mundo dos mangás e animes) ?!

Pois aqueles traços duplos denotam essa dualidade na personalidade dela, de ser uma pessoa dividida entre muitos conflitos e ter lados antagônicos em sua personalidade. Experimentem tampar parte das sobrancelhas dela e analisar a fisionomia. E depois tampar outra parte. Muda completamente a feição!!!

Isso quem me ensinou foi o Paulo Fério !

AD: Parece que o seu contato com os fãs de animês é maior que o de outros dubladores. Qual é sua relação com os fãs ?

Acho que hoje isso acontece sobretudo porque a internet propicia essa proximidade. Estou sempre na net, falando com os fãs, respondo a todos os e-mails

 ( que são muitos ) Por isso às vezes demoro pra responder. Só tenho preguiça de responder entrevistas ( risos). Então já sabem...quem quiser me escrever não espere que eu responda 235 perguntas, porque acho um pouco chato. Quem ler  esta entevista já vai ficar sabendo o básico, que muitas vezes me perguntam, então procurei responder aqui de uma forma bem abrangente. Só acho que o Junior Fonseca ( editor ) vai achar que eu tô falando demais, né Junior ??!

Mas antes mesmo de ter computador, eu já curtia participar de evento ( Mangacon, os do CAS...) E uma vez o  fã clube AXIA veio de Curitiba, pra nos visitar em São Paulo. Fiz questão de contratar uma van para ir buscá-los na rodoviária e organizei um roteiro muito legal. Passei o dia com eles, levei a moçada pra conhecer uns sete estúdios aqui de São Paulo e mais a editora da Revista Herói. O Hermes Baroli e o Fabinho Lucindo (que tinha uns 12 anos) acompanharam a gente nesses paseios. Reservei um restaurante e marquei um almoço onde foram uns 15 dubladores e à noite fiz uma festa num barzinho com telão e tudo. Foram muitos dubladores e garanto que foi um dia inesquecível pra muita gente.

Mas não podemos nos esquecer que não é todo mundo que tem acesso fácil  à internet, então estar dando essa entrevista para uma revista também é muito especial, porque posso abranger um público que normalmente nem sabe nada de mim .

Quanto aos eventos ( que hoje em dia são freqüentes) compareço sempre que posso e ainda gostaria de dizer que, nesses 10 anos de carreira como dubladora, vários fãs tornaram-se meus amigos . Isso é maravilhoso !

 

AD: Como é ter uma coluna em um site de Animês? Você se sente mais próxima dos fãs?

Com certeza a coluna Di_Versão Brasileira, do site Anime Pró me possibilita estar ainda mais perto da moçada. Esse site sempre valorizou o trabalho dos dubladores em geral. Foi uma honra ter sido convidada para escrever lá, mas como os meninos me deixam muito à vontade, pra só escrever quando eu quiser, a coluna não tem uma periodicidade estável. Ou seja, demoro pra atualizar, mas quando escrevo algo é porque eu realmente quero contar aquilo pra vocês !

AP:Finalizando, tem alguma mensagem para deixar para seus fãs ?

Obrigada por se interessarem pela dublagem brasileira, por serem sempre tão carinhosos em seus e-mails para mim e fico muito feliz que reconheçam minha voz, na figura de personagens tão queridas de vocês.

Quem ainda não leu minhas matérias, é só ir no site :

www.animepro.com.br

E quanto àquele trabalho que eu disse que fiz na Europa, era um lance de voz também. Foi uma coisa muito interessante e eu gostaria de contar mais sobre ele pra vocês, então será tema de uma das próximas colunas, lá no site, tá bom ? Até lá !